O ano era 1996 e fazia pouco mais de mês que eu tinha deixado a minha terra natal. Ainda assim, não foi uma ruptura propriamente dita, afinal, a distância não impedia voltar a sentir o minuano cortando o rosto e dando a sensação de que o inverno nunca ia embora. E para além disso, havia uma questão fundamental que impedia uma despedida plena: a eleição municipal.
Meu Pai, com vasta experiência em bastidores e coordenações de campanhas políticas, naquele momento já não detinha a mesma entrega e importância de antes, porém ainda abraçou aquela que foi uma das suas últimas jornadas nas entranhas dos "diretórios"; sobremaneira na reta final. Recordo bem do carro embandeirado, daquela carreata gigante, dos últimos comícios nos confins mais inóspitos da minha cidade e dos mosquitos borrachudos dividindo espaço com o povo aglomerado para escutar os candidatos; aliás, também lembro do grande comício final no CTG e da noite de sábado, véspera do pleito, onde estava eu guri sentado no sofá numa sala ampla da casa do candidato a Prefeito, em meio a muitas bolas amarelas sorridentes e outros materiais de campanha, enquanto os adultos em reunião no ambiente ao lado.
A certeza era de vitória, com uma contagem apertada de votos - como figurava a história nos certames de nós contra eles; todavia, o sentimento (ao menos) era de vitória.
Com a abertura das urnas veio a primeira e única frustração que já tive com política na minha vida: perdemos, por trezentos e poucos votos. Sim, foi uma vitória sorrateira do lado de lá e isso me causou revolta; minha mãe chorava e praguejava o "povo burro". Meu Pai, como de costume, resignou-se. Na minha cabeça e diante de tudo que eu via e ouvia à volta, o mundo para a minha cidade acabava ali, naquela derrota.
Depois, me afastei da política a medida que meu Pai também abandonou a vida partidária. No segundo turno das eleições gerais de 1998 ele, pela última vez, fez uma movimentação ativa no que compete uma campanha. Nunca deixei de gostar, mas entendi ali que a política tinha tirado tanto da minha família, que esse era um caminho que eu não deveria traçar, tampouco percorrer. Obviamente, como diria Jaime Caetano Braun "o vício é que nem sarnoso, nunca para e nem se ajeita". Tive algo parecido com uma 'recaída' no âmbito da política estudantil, por 'longos' dois anos já quase no fim da minha minha carreira nos bancos escolares.
De lá pra cá, um ou outro devaneio e mais derrotas morais do que vitórias da consciência.
O mais engraçado de tudo é que quem ganhou a dita eleição na minha terra acabou ficando no poder por oito anos e, pasmem, a cidade não terminou. Seguiu em frente e mesmo que não tenha evoluído muito ao meu entender, nunca parou. Não foi o fim do mundo.
Perder uma eleição é democrático; nunca o fim do mundo.
Neste Brasil polarizado de hoje em dia a sociedade, imbuída num fanatismo néscio, caminha no sentido do "nós contra eles". Se antes quem buscava tão somente não se manifestar sobre o tema era 'deles', agora quem o faz somos 'nós'. Só que o fanatismo, tal aquele genérico que experimentei no meu tempo de guri, causa uma cegueira tão deliberada que isso tem nos impedido de entender que tanto faz quem vai ganhar, afinal, no outro dia vai ser uma segunda-feira como qualquer outra em que teremos de levantar da cama e ir à luta pois não existe "almoço grátis".
A minha cidade, a tua; o meu Estado, o teu; o nosso país, afinal, seguirá andando em frente - mais rápido ou quem sabe menos, mas andará. O Brasil, apesar dos piores, nunca deixou de ser uma Nação que anda pra frente. Quem ganha que cumpra o que prometeu e quem perde que saiba porque perdeu e trabalhe para mostrar a razão pela qual merecia ter continuado. Ambos, com inteligência, determinação e perseverança. Utópico, eu sei, mas de realidade pura e simples.
A democracia é isso: ganhar e perder, sempre. E é por isso que ela é tão importante, pois nos permite começar tudo de novo daqui a quatro anos. A primeira e única frustração que já tive com política na minha vida foi há 30 anos e de lá para cá eu entendi que não existe uma única verdade absoluta quando o assunto envolve política e campanha eleitoral.
Eles não são melhores que nós; e nós não somos melhores do que eles. O dia sempre amanhece de novo e a vida nos dá uma nova chance de recomeçar.
Pois bem, encerro nessa eleição o compromisso de cidadão na minha terra. De lá para cá foram doze eleições, quatro prefeitos, alguns vereadores, muitos deputados, senadores, governadores e presidentes. O que mudou foi eu que, passadas três décadas já não conheço mais quase ninguém ao andar na rua e isso me rotula, objetivamente, como um turista na minha própria cidade.
Mudar, logo, é preciso. Mas quem foi que disse que mudanças não podem ser boas?
Abraço e boa semana a todos.


































